Atualidades em biologia

Não matem as nossas mariposas!

Ver Currículo - Fernando C. Straube • 04 de dezembro de 2017


Ano após ano, no meio da primavera, uma notícia lamentavelmente incompleta tem se repetido pelo Brasil e em especial no litoral do Paraná. Refere-se a “surtos” de dermatites causadas pelo contato com “mariposas”. Neste ano de 2017, constam mais de 300 atendimentos médicos – só em Paranaguá – de alergia cutânea causada, segundo consta, “pelo pó liberado pelo bicho quando ele bate as asas”.

Graças a isso, as pessoas estão matando impiedosamente toda e qualquer espécie de mariposa que vêem à frente, ou que entram nas casas atraídas pela luz. Isso é lastimável. Os lepidópteros, grupo a que pertencem as borboletas e mariposas, são elementos importantes na natureza. Servem de alimento para uma infinidade de animais, controlam populações de plantas invasoras e, especialmente, promovem a polinização das plantas. Além disso, é sabido que muitos tipos de plantas têm “antese noturna”, ou seja, abrem suas flores expondo os nectários (receptáculos de néctar) e liberando o pólen apenas no período da noite. E isso ocorre porque são especializadas em polinizações por criaturas noctívagas como morcegos, pequenos marsupiais e uma infinidade de insetos.

As pessoas não têm a obrigação de sair por aí identificando animais ou plantas, porém, é importante que a mídia assuma a responsabilidade por informações que podem resultar em mortandade desnecessária desses animais. Ao noticiar que “mariposas” são a causa desses problemas, dizem implicitamente que todas as mariposas são perigosas e causam reações alérgicas nas pessoas. E, para complicar, as fotos que ilustram essas matérias jornalísticas aludem a mariposas absolutamente inofensivas, sugerindo serem essas o motivo de tanta preocupação. Tudo isso fica ainda pior se considerarmos que nove entre dez brasileiros acreditam piamente na lenda ridícula que o pozinho das asas dos lepidópteros pode deixar uma pessoa cega se, por descuido, for parar nos olhos.

De fato, as larvas de muitas espécies de lepidópteros são urticantes e algumas delas bastante perigosas se houver contato com a pele. Mas os adultos raramente representam algum tipo de perigo, a não ser quando envolvem algumas espécies que – ressalto – são exceção!

A tal mariposa a que se refere a mídia pertence ao gênero Hylesia, um grupo ainda pouco conhecido de saturnídeos com várias espécies descritas e difícil diferenciação. Tratam-se de pequenas mariposas, cuja envergadura das asas não ultrapassa os 4,5 cm e de coloração cinzento amarronzada, com destaque – no abdomen – por densa cobertura de cerdas alaranjadas. É considerada uma praga da fruticultura, bem como de monoculturas de essências florestais, embora sejam conhecidas quase 40 tipos de plantas (muitas delas nativas) que servem de alimentos às larvas. A espécie, inclusive, é bem conhecida dos estudiosos pela enorme quantidade de larvas que, ocupando uma única árvore, são capazes de desfolharem-na por completo. Além disso fazem parte desse tipo excepcional de problema sanitário cujos adultos também podem causar dermatites, constituindo o que se chama de lepidoterismo e que é conhecido no Brasil desde o século passado. As irritações, no homem, se devem ao contato com as cerdas (escamas modificada do abdômen) que servem para recobrir e proteger as posturas dos ovos.

 

 

[Hylesia nigricans: (1) agregação em campo; (2) postura com ovos expostos; (3) postura; (4) postura com aberturas por onde as lagartas saíram; (5) lagarta de último ínstar (Fonte: extraída de Specht et al. 2006)

[Hylesia nigricans: (1) agregação em campo; (2) postura com ovos expostos; (3) postura; (4) postura com aberturas por onde as lagartas saíram; (5) lagarta de último ínstar (Fonte: extraída de Specht et al. 2006).]

 

Representantes adultos de Hylesia nigricans: (6) fêmea; (7) macho com abdome de coloração normal; (8) macho com abdome de coloração amarelada (Fonte: extraída de Specht et al. 2006).

[Representantes adultos de Hylesia nigricans: (6) fêmea; (7) macho com abdome de coloração normal; (8) macho com abdome de coloração amarelada (Fonte: extraída de Specht et al. 2006).]

 

 

De uns tempos para cá, a Hylesia tem se proliferado grandemente nas regiões Sudeste e Sul e não se sabe perfeitamente as causas disso. Porém, como todo desequilíbrio natural, é bem provável que se deva a algo que nós – humanos – estamos fazendo de errado. De acordo com um estudo autorado por Alexandre Specht, Aline Formentini e Elio Corseuil, podem ocorrer desvios de seu ciclo reprodutivo em decorrência de fenômenos climáticos bem conhecidos, como o El Niño e a La Niña. Com isso, pode-se supor que o aquecimento global e desmatamento descontrolado, bem como todos os problemas direta e indiretamente envolvidos podem ser o motivo dessa situação.

Matar, por medo e desconhecimento, tudo o que se move ou entra pela janela não é uma atitude correta. E não só por ser desnecessária, mas porque potencializa o desequilíbrio da natureza e, assim, agrava a nossa situação enquanto participantes dos processos naturais. A imprensa e as autoridades de saúde precisam se acautelar disso, frente ao evento aqui narrado. Nem toda aranha é marrom...

 

 

[Post scriptum: Depois do alerta que produzi para a rede social Facebook, fui procurado por alguns veículos de imprensa. Sugeri que fosse feito contato com a equipe que estuda Lepidoptera na UFPR para melhores esclarecimentos. Logo na manhã de 30 de novembro, vários jornais haviam editado suas matérias online, alterando a imagem - agora representando de fato a Hylesia - e adicionando informações mais precisas].

 

Sugestões de leitura:

Specht, A.; Formentini, A. C. & Corseuil, E. 2006. Biologia de Hylesia nigricans (Berg) (Lepidoptera, Saturnidae, Hemileucinae). Revista Brasileira de Zoologia 23(1): 248-255. Disponível online em: http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81752006000100018

Specht, A.; Corseuil, E. & Abella, H. B. 2008. Lepidópteros de importância médica: principais espécies no Rio Grande do Sul. Pelotas, Editora Useb.

Cabrerizo, S.; Spera, M. & Roodt, A. de. 2014. Accidentes por lepidópteros: Hylesia nigricans (Berg, 1875) o “mariposa negra”. Archivos Argentinos de Pediatria 112(2):179-182.

 

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