Atualidades em biologia

Anarquistas, Graças a Darwin

Ver Currículo - Fernando C. Straube • 09 de junho de 2017


A Nature já foi mais seletiva. A edição de 1° de junho de 2017 traz uma matéria incompreensivelmente crítica (para não dizer criminosa) à taxonomia, de autoria de Stephen Garnett e Les Christidis, ambos docentes na Austrália, respectivamente nas universidades Charles Darwin (Darwin) e Southern Cross (Coffs Harbour).

De acordo com esses autores, a “Anarquia (sic) da Taxonomia dificulta a conservação”, já que a classificação de organismos complexos seria um caos, uma vez que usa – de acordo com cada autor – um ou outro conceito para a ordenação das espécies, o que tem causado prejuízos para as ações de conservação.

 

O caos na classificação emperra a conservação, segundo Garnett & Les Christidis (2007)

Certo, a conservação é uma matéria fundamental e diz respeito direto ao futuro. Mas é incompreensível que exista gente tão radical a ponto de deflagrar um fogo amigo, usando tais argumentos. Bom seria se tivéssemos nomes científicos eternamente fixados e imutáveis. Mas os críticos baseiam-se em um fundamento quase bíblico para o qual uma entidade como a IUBS tivesse autoridade para criar mecanismos que coibissem “the freedom of taxonomic action” (!). Cheira a criacionismo e à conhecida estratégia de alguns grupos religiosos de adulterar opiniões: “ ‘No one definition has satisfied all naturalists; yet every naturalist knows vaguely what he means when he speaks of a species,’ wrote Charles Darwin in On the Origin of Species in 1859”. Senti-me lendo um livro da "Torre de Vigia"...

Não há dúvidas que a taxonomia tem surtos. Afinal, ela é baseada em conceitos que se alteram (leia-se evoluem) ao longo do tempo. E estamos passando por um desses momentos em que novas técnicas nos mostram caminhos divergentes e interpretações distintas – daqueles de que dispúnhamos há anos atrás. Vivemos uma revolução e isso é sinal de progresso, de melhor entendimento e de um debate mais rico.

O gráfico apresentado (nomeado “Mix’ n’ Match”) alude às Aves. Quer ilustrar que, de acordo com quatro fontes, há um número diferente de espécies no mundo. Sim, isso é fato. E mesmo no que diz respeito a avifaunas de um estado ou país, há mesmo essa divergência. Sabemos que a entidade biológica ali ocorre, mas temos dificuldade em dar-lhe um nome. Para quem faz inventários e revisões de listas isso é arroz-com-feijão mas reflete unica e exclusivamente uma condição analítica e não a necessidade de aceitação cega de uma única obra.

O momento em que vivemos, na Ornitologia, é muito especial. Até que enfim a geração de ornitólogos que tem 50-80 anos de idade começa a ver um grande contingente de pessoas trabalhando com taxonomia. No fim dos anos 80 eu escrevi um artigo para o Boletim da Sociedade Brasileira de Ornitologia e, como conclusão, focalizei o fato de uma parcela ridícula dos ornitólogos do Brasil declararem interesse na sistemática de aves. Mas assim era há algumas décadas, quando a equipe de Charles Sibley e Jon Ahlquist ainda estava começando a incluir dados moleculares como instrumento de reconhecimento de parentesco, sob um ponto de vista realmente sistêmico.

Hoje tudo mudou e estamos pouco a pouco arrumando a casa. Mas é um processo lento e gradual. Não se faz da noite para o dia. Assim, se os próprios autores dessa pérola não são capazes de discernir “anarquia” de “evolução” é porque ou não estudaram o suficiente, ou porque são mimados demais e querem as coisas todas mastigadinhas à sua disposição. Soa como o desejo de algo imediato: “– Quero nomes perenes – façam seu trabalho, e logo”.

Além disso, reflitamos sobre como está a classificação de outros organismos que são menos conhecidos e, por assim dizer, com dezenas, centenas e até milhares de espécies a serem descritas! Por que razão Garnett e Les Christidis não mencionaram, digamos, platelmintos e, afinal, colaboraram de fato com o panorama realmente problemático que é o desconhecimento de nossa biodiversidade? Usar o primo rico – a Aves – que estratégia pequena, não? Será que deu preguiça de procurar dados sobre outros grupos que – convenhamos – merecem o mesmo tipo de empenho para serem protegidos? Ou será que a culpa pela ignorância flagrante da biodiversidade não acabaria sendo revertida a todos nós? Talvez os autores não desejem manifestar-se propriamente no quanto temos falhado também na conservação. Pela mesma estratégia infantil, os taxonomistas poderiam escrever um artigo exigindo: “– Conservem as espécies; caso contrário, não teremos muita coisa a pesquisar!”.

Talvez necessitássemos repensar ainda outra questão: se as pesquisas com taxonomia tivessem 10% dos recursos destinados à conservação, aposto que o conhecimento e a tão merecida estabilidade dos nomes seria mais rápida e conclusiva. Por enquanto taxonomistas continuam sem ter muito apoio e sem dinheiro para levar tudo isso adiante que, sempre, depende das “criticamente ameaçadas” (para não dizer “regionalmente extintas” – há também divergências na definição de status nesse caso) instituições de nível superior. E, claro, os autores de espécies novas que são descritas, ganham – no máximo – seu nome ao lado do binômio. Raramente são citadas como fontes. Assim, pouco lembrados pelo protocolo que privilegia podução, os estudos passam a ser menos reconhecidos e as equipes ganham menos recursos.

Tudo o que a ciência dos pobres não precisava era um artigo como esse. Gera desentendimento sobre a pressa que os autores alegam ter que, como sabemos, não combina com um parto a fórceps.




Fontes: Garnett & Les Christidis 2017 (Nature 546: 25-27); Straube 1990 (Boletim da SBO 18)

 

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