Atualidades em biologia

De-extinguir ou não de-extinguir?

Ver Currículo - Walter A. Boeger • 02 de maio de 2017


Mais uma vez, Hollywood acerta nas suas previsões do futuro.  É claro que também erraram bastante, mas dessa vez, acertaram quase na mosca, pelo menos no interesse que temos por reviver espécies extintas.  Guardados os devidos absurdos, a série de filmes "Jurassic Park" acerta sobre a possibilidade de "de-extinguir" espécies de animais (e plantas?).  Uma apresentação no TED deixa esse desejo bastante evidente!  Técnicas moleculares e manipulação de células e embriões já permitem almejar a produção de clones de animais hoje extintos.  No vídeo fica evidente que o foco tem sido as espécies cujas extinções são de nossa responsabilidade.  Pombas caçadas intensamente à extinção nos Estados Unidos, cabras, bovinos, marsupiais...  Algumas das técnicas identificadas como promissoras envolvem protocolos muito semelhantes àqueles sugeridos no primeiro filme da série "Jurassic Park": "prencher" os espaços desconhecidos (perdidos) do genoma com fragmentos de DNA de espécies filogeneticamente próximas daquelas hoje extintas e alvo do esforço de ressuscitação.  Se todos se lembram, isso foi feito com DNA de espécies de anfíbios no filme original.  O filme é convincente na habilidade e no conhecimento que temos hoje.  Tentativas de produção de clones já tiveram sucesso, pelo menos parcial.  De-extinção é, me parece, uma meta plenamente viável no atual nível de conhecimento científico e tecnológico e  muitas espécies poderão ser de-extintas no futuro breve.  Muito breve.


Qual é a origem dessa necessidade de buscar recuperar espécies perdidas?  Na minha perspectiva, e após assistir a reação da platéia no vídeo indicado acima, isso ficou mais claro.  Parece que a principal razão é emotiva.  A humanidade é culpada pela literatura especializada e leiga por um número enorme de extinções de espécies desde antes da civilização atingir os moldes que conhecemos hoje surgir, há cerca de 10 mil anos atrás.  Trazer espécies de volta pode representar a absolvição de nosso pecados para algumas pessoas. 


Mas apenas recriar (ou criar, se híbridos) espécies extintas e mantê-las em zoológicos ou laboratórios talvez não nos satisfaça.  Se somos capazes de trazer espécies de volta, então, precisamos ser capazes de retornar essas espécies para o ambiente natural no qual viviam.  E muitos desses ambientes foram altamente modificados, reduzidos ou não existem mais (só mais um de nossos inúmeros "pecados").  É claro que muito foi feito em termos de melhoria e conservação de áreas de proteção ambiental no mundo, mas precisamos reconhecer que mesmo com todo nosso esforço, o resultado final continua muito, muito abaixo daquilo que poderia ser considerado satisfatório.  Com 7 bilhões de pessoas sobre o planeta, e crescendo, os espaços para "conservação" ou recuperação de hábitats torna-se mais e mais limitados. Assim, trazer populações de espécies extintas para hábitats degradados e reduzidos, nessa perspectiva romântica e quase religiosa de recompor um ambiente que destruímos, me parece mais utopia do que realidade.  No mínimo, estaremos adicionando mais uma espécie na lista de espécies em risco de extinção (re-extinção?).  Se introduzidos espécies de-extintas no meio ambiente atual, essas serão espécies invasoras temporais, uma vez que o ambiente e as comunidades das áreas nas quais viviam certamente não serão mais os mesmos (mas sobre espécies invasoras, iremos conversar em um blog mais a frente). 


Uma outra razão de investir recursos e tempo com o objetivo de de-extinguir espécies é estudá-las diretamente.  Entender evolução de comportamentos, compreender morfologia, fisiologia, qualquer outra propriedade inata (herdável) dessas espécies pode parecer um objetivo muito atraente.  E de fato, pode ser bastante interessantes para algumas espécies sem grupos filogeneticamente próximos hoje, como o Dodo e o Tigre da Tasmânia.  Mas de uma maneira geral, análises de biologia comparada hoje permitem um excelente aproximação sobre a evolução dessas características dentre os grupo aos quais muitas dessas espécies pertencem (ou pertenciam).  


Por outro lado, de-extinguir pode representar uma forma excepcional de avançar em áreas da biologia, especialmente no desenvolvimento e teste de novos protocolos genéticos, embiológicos, reprodutivos.  Nesse caso, os animais de-extintos tornam-se apenas um produto "curioso".  O meio justificaria o fim.  Resta, mesmo assim, decidir o que fazer com os organismos assim produzidos.  Considerando o estado desse nosso pobre planeta, acho que irão acabar em zoológicos ou eutanasiados.   


Qual a tua opinião sobre isso?


Uma análise sobre o custo comparativo da de-extinção foi publicada aqui:  http://www.nature.com/articles/s41559-016-0053

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