Atualidades em biologia

Sobre bichos e coisas: do you speak zoologuese?

Ver Currículo - Fernando C. Straube • 29 de junho de 2017


Bicho. Todo o animal que não é homem, nem ave, nem peixe...”

(Luis da Câmara Cascudo: Dicionário do Folclore Brasileiro).

 

 

Há somente duas palavras que falamos – e muito – mas que jamais cogitaríamos escrever em um texto, digamos, sério. São elas: bicho e coisa. Essas duas, mais as plantas, que são até usadas em termos técnicos de Botânica, fecham a tríade de tudo o que existe de palpável no mundo. Isso se (humanos que somos) nos considerarmos bichos o que, heresia ou não, é a mais pura verdade. E assim somos desde Lineu, em 1758, quando nos descreveu logo como a primeira das espécies dos bichos primatas.

De fato, muitos zoólogos chamam a atenção pela aparência de bichos-grilos, eventualmente se especializando em grilos-bichos, daqueles que acham a barata um verdadeiro barato! Acho que isso vem lá dos anos 60, quando a natureza começou a ser encarada de outra maneira, que a figura do cientista de natureza se liga a essa condição meio raulseixista. E ainda tem toda aquela conotação estereotipada da conservação da natureza e do estudioso que faz pesquisa de campo, com seu jeans surrado e bota meio suja de barro. Nem é preciso ir muito além para encontrar exemplos. Uma simples participação em um congresso da área médica e noutro – da área biológica – é suficiente para que percebamos as enormes diferenças morfológicas (e etológicas) de público. Para alguns, Biologia não seria uma profissão e sim um “estilo de vida”...

Muitos pesquisadores que começaram a demonstrar interesse pela Zoologia na década de 70 são obrigados a confessar que isso foi despertado porque ganharam de seus pais a então famosa enciclopédia “Os bichos”. Essa série, editada pela Editora Abril, foi lançada no Brasil em 1970 e teve grande repercussão entre as crianças. Trazia todo o tipo de bicho, de acordo com a região geográfica de ocorrência, com desenhos bonitos e coloridos e textos razoáveis para a época. Por isso, não é nada constrangedor confessar que a primeira obra consultada pelos zoólogos dessa geração foi uma enciclopédia; afinal, naquele tempo – idos de 70 – era uma das poucas fontes populares de divulgação que permitia às crianças alguns momentos de leitura especializada.

 

 A coleção “Os bichos”, publicada pela Editora Abril a partir de 1970.

 

Talvez tenha sido por meio dessa influência que hoje em dia os zoólogos falem tanto e tão repetitivamente em “bichos”. Um certo apresentador de documentários de TV (outrora intitulado “aventureiro animal”, seja lá o que isso signifique...) independente do tom piegas que se utiliza ao chafurdar na lama para abraçar um jacaré, dentre outras esquisitices, é um exemplo a ser avaliado. Em um único programa da antiga série televisiva “Aventura Selvagem”, repetiu 34 vezes a palavra “bicho” nos curtos 12 minutos em que aguentei assisti-lo. Isso dá um pouco mais de 2,8 bichos por minuto! Esse cálculo, para algum estudante intoxicado pela estatística como remédio para todos os males, poderia mesmo conferir ao Brasil outra cifra continental: somos o país com a maior “bichodiversidade”. E convenhamos, ao mesmo tempo, o que tem uma das também maiores megapobrezas de formas de comunicação entre zoólogos e o público comum !

Acontece que o pesquisador, ao tentar explicar-se sobre seu trabalho, suas teorias, idéias ou mesmo ao contestar alguma prática popular, tropeça inevitavelmente em seu próprio jargão. Afinal, criou sua linguagem própria, que dificulta a comunicação com o mundo externo. Quando tenta sair dela, perde-se em uma situação incompreensível de pobreza de vocabulário: só lhe resta usar a palavra “bicho” que, como sabemos, é o próprio objeto de trabalho do zoólogo! Até cogita falar em “animal”, mas evita essa palavra por sua conotação pejorativa ou aproximada demais à veterinária e zootecnia.

Se procura evitar a palavra “bicho”, arrisca falar "indivíduo". E os não-zoólogos se divertem com isso porque passaram toda a vida pensando em indivíduos como pessoas e jamais compreenderiam que fosse também uma entidade biológica não-humana. Tentam “espécie” o que, como sabemos, não é um sinônimo de indivíduo. Só resta então o “bicho”, um coringa, que funciona tanto para uma quanto para outra situação. Aí a coisa se confunde mais ainda: “- Este bicho (espécie) se alimenta de insetos”; “- Este bicho (indivíduo) é muito grande para os padrões”. Está feita a confusão.

 

Mas, afinal, o que é o “bicho”?

 

Segundo os dicionários mais afamados, vem do latim bestia, depois de modificações, empréstimos e adaptações, em particular pelo italiano “bistia”, que lhe deu a fonética chiada. Para Raphael Bluteau, em seu “Dicionario Latino e Portuguez” de 1720, já no Século 18 tinha múltiplas funções: Bicho era “Geralmente fallando, todo o genero de Insectos, que se geraõ nos corpos ou se criaõ na terra, nas arvores, nos fructos e&c.”. Sua variação feminina é, em Portugal, o que chamamos aqui de “fila” e, em forma politicamente incorreta, o mesmo que homossexual em português do Brasil, mas, se flexionado no plural alude a certos vermes intestinais, notadamente os Ascaris. Diz-se, por exemplo, que o sujeito come muito açúcar para “acalmar as bichas”.

No Brasil, foi usado por muito tempo apenas para designar insetos, tantos úteis (bicho-da-seda) quanto nocivos. Lá por 1820, em especial no Nordeste, já servia como designação de um tipo de animais de criação, os caprinos. De fato, a partir desse ano são comuns as notícias, em jornais, de ofertas de animais à venda, deixando bem claro que o objeto a ser comercializado eram “cabras bichos”.

 

Anúncio para venda de uma “cabra bicho” no “Diario de Pernambuco” (edição n°197) de 15 de setembro de 1829.

 

Note-se que essa diferenciação foi importante no período em que se praticava a escravidão. Afinal, era importante distinguir “cabra” (ser humano) de cabra “bicho”, especialmente porque tais anúncios apareciam na mesma seção, e muitas vezes intercalados, dos jornais!  Pois é...

Mas aos poucos esse sentido foi se perdendo e, dos insetos para a cabra; e da cabra para outros animais é que se fixou hoje em dia, em um dos vocábulos mais pobres e insubstituíveis de que dispomos. O sistema de busca mais competente da internet (Google, acessado em 20 de junho de 2017) nos dá quase 36,2 milhões de entradas para o verbete, predominantemente ligadas a uma contravenção (jogo do bicho), mas a palavra está, de fato, incorporada às mais variadas situações do cotidiano brasileiro, sempre referente a espécies reais (bicho-de-pé, -cachorrinho, -preguiça, -pau, -da-seda, -carpinteiro), analogias (bicho-de-pelúcia) até elementos do folclore (bicho-de-sete-cabeças). Essa respeitável riqueza de composições, no entanto, nada mais é do que reflexo da virtual inexistência de um termo equivalente, aplicável pelo menos no âmbito coloquial dos próprios pesquisadores e de pessoas ligadas à área.  

Para completar a pesquisa, fui até a Bíblia em várias de suas versões online, procurar pelo verbete e encontrei pouquíssimas passagens, quase sempre com ideia pejorativa como, por exemplo, referindo-se a moscas que se criam na carne podre, como metáfora à decomposição. É, de fato, uma incrível parcimônia, considerando milhares de páginas  impressas e as riquíssimas menções a animais de todos os tipos nessa obra (ver “List of animals in the Bible”, na Wikipedia).

Concluo com uma pergunta: será mesmo que não temos nenhuma outra palavra à altura para substituir o já cansativo “bicho” espécie/indivíduo que se repete ad nauseam em nosso cotidiano? Agora é que são elas. O bicho vai pegar!

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