Atualidades em biologia

Frei Velloso e as aves do Brasil

Ver Currículo - Fernando C. Straube • 17 de julho de 2017


     José Xavier Velloso Carmo (ou José Mariano da Conceição Vellozo) (1742-1811) foi um frade mineiro, também professor e profundo estudioso da História Natural brasileira no fim do Século XVIII. Antecedeu, portanto, o surto de naturalistas que vieram ao Brasil como consequência da Abertura dos Portos (1808) e foi contemporâneo de outro notável naturalista brasileiro: Alexandre Rodrigues Ferreira. Como esse, desenvolveu sua carreira em Portugal sob a orientação de Domingos Vandelli mas, ao contrário dele que ficou famoso como zoólogo, Velloso preferiu a botânica. Afinal, antes mesmo do famoso “Flora Brasiliensis” de von Martius, coleção sedimentar sobre as plantas do Brasil, frei Velloso produziu, a partir de 1790, o “Flora Fluminensis” um catálogo de plantas ocorrentes na então Capitania do Rio de Janeiro, publicado em onze volumes em Paris. Essa coleção, com 1639 descrições em latim e desenhos respectivos, foi publicada 39 anos depois de concluída, fazendo com que perdesse a prioridade de quase todos os táxons ali descritos.

 

 

     Pouca gente sabe que, além da Botânica – campo em que é celebrado internacionalmente (p.ex. família Velloziaceae) – estudou muitos outros organismos, dentre eles insetos, moluscos e principalmente peixes, além de geologia. Ele também é autor de uma das primeiras obras sobre a avifauna brasileira: “Aviario brasilico ou Galleria ornithologica das aves indigenas do Brasil”, editada em Lisboa no último ano do Século XVIII (1800). Essa obra foi impressa na “Typographia Chalcograhica, Typoplastica e Litteraria do Arco do Cego” da qual era diretor e seu maior entusiasta, publicando inúmeras obras sobre temas biológicos mas também poesia, desenho, náutica, história, matemática, química e física.

 

 

 

     Trata-se de um livro raríssimo que, segundo o autor, aborda as aves “...por serem aquellas, que no Reino Animal gosão de maiores preeminencias, e porque os nossos Antigos, olhando para ellas, como vaticionadoras do futuro, as desejavam boas nos seus casos (bonis avinus)”. Para fazê-lo, Velloso contratou os melhores gravadores de Portugal para que produzissem ilustrações de espécies selecionadas, com base nas obras de Buffon, Brisson, Latham, Marcgrave e vários outros.

     Verdadeiro tratado de Ornitologia, inicia com uma sinopse história das pesquisas com aves silvestres, passando por uma acurada descrição da morfologia e até memo da biologia geral (“delineamento, habitação, região, arribação, desposorios, construcção do ninho, postura, choco e entretinho”). Em seguida aborda a utilidade das aves, desde a alimentação humana até suas virtudes medicinais e passa a ilustrar as espécies uma a uma, com descrições.

 

 

 

     Velloso, em todo o conteúdo da obra demonstra grande conhecimento na Ornitologia, com menção aos principais autores antigos e contemporâneos. Critica, inclusive, alguns deles por usarem apenas características de coloração – arbitrárias, segundo ele. Em seu ponto de vista, a distinção entre gêneros deve ser feita com base em partes nuas, como se vê textualmente (Parágrafo 13, p. 11).

 

 

     O livro é considerado a primeira publicação dedicada exclusivamente às aves do Brasil e, embora sejam poucas as espécies retratadas é, sem dúvida, o mais antigo “guia de identificação” brasileiro. Dá o frade, inclusive, noções sobre aquilo que o observador, o estudioso e o autor de novas espécies deve atentar, quando de sua prática: “Dever-se-ha empenhar o Descriptor , em que a ave seja com toda a exacção delineada, para que as notas vagas, e incertas não estraguem a sua descripção. Por esse motivo não deve desprezar nota alguma tomada de seu habito exterior. Observará a ordem prescripta pela natureza, mui escrupulosamente, principiando a sua Descripção da cabeça até o fim, e de nenhuma sorte as avessas. Porá todo o cuidado em ser breve, para não causar fastio, dizendo mais do necessario. Exponha todas as parte por nomes substantivos, e as differenças destas por nomes adjectivos, e contando mui pouco, ou nada com os termos escolasticos”.

  

Fontes: Carlos Stellfeld (1952: Os dois Vellozo. Graf. Ed. Souza); Helmut Sick (1997: Ornitologia brasileira. Nova Fronteira); Bediaga & Lima (2015: Bol. Mus. Par. Emilio Goeldi, Cienc. Hum. 10(1):85-107).

Ver também:

Flora Fluminensis (online): http://www.botanicus.org/title/b12006385

Arco do Cego: http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e24.html

 

 

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