Coleções Zoológicas

Somente o futuro irá nos mostrar se valeu a pena...

Ver Currículo - Fernando C. Straube • 17 de abril de 2023


SOMENTE O FUTURO IRÁ NOS MOSTRAR SE VALEU A PENA...

 

Há dias ele não conseguia mais levantar-se logo cedo, como de costume, para acender a fogueira e apreciar os primeiros raios de sol da manhã. Toda aquela animação para logo ver-se enfiado na mata em busca de pássaros, vinha declinando aos poucos.

Já desde a beira do rio Paraná, durante sua estada em Porto Mendes, mostrava sinais de abatimento, pela temida malária que, aos poucos, agravou-se em séria pneumonia. As pernoites sob a lona da barraca, a umidade dos vestes e calçados, o extremo desgaste físico: tudo somava-se para complicar seu estado de saúde. Foi assim que, gradativamente, todo aquele ímpeto matinal convertera-se em uma nova luta, agora pela sua própria sobrevivência.

A noite não tinha sido nada fácil e, em um raro momento em que a febre e a tosse deram-lhe trégua, gritou, com a voz trêmula:

 

“- Tadeusz! Tadeusz!”

 

Chegando rapidamente ao quarto da modesta morada, seu amigo – que também chamava-se Tadeusz – pôs-se a escutá-lo, sentando-se à beira da cama. Ele igualmente padecia de malária, porém, tivera mais sorte. Sua imunidade havia sido mais competente, cabendo-lhe suportar os episódios de febre e calafrios que se repetiam a cada dois dias.

 

“- Você não pode desistir. Ainda resta algum dinheiro para você continuar nosso trabalho e, mesmo sozinho, retornar à Polônia em segurança. Guarde nosso material com carinho e viaje junto a ele até ter certeza de que chegará são e salvo a Varsóvia”.

 

Aquilo soara como um canto de cisne, mas a inabalável esperança, próprio de seus recém cumpridos 24 anos, fizeram-lhe resistir, procurando reconfortar o amigo:

 

“ – Aguente firme, companheiro! O prefeito de Foz do Iguaçu garantiu-nos que há uns dias enviara um médico e também remédios. Estão a caminho”.

 

Sem querer mostrar sua apreensão, olhou para o velho calendário preso à parede. Era 4 de abril de 1923. Ansioso, contava desde então os minutos, aguardando o tão esperado auxílio. Entrecortadas por repetidos acessos de tosse, Chrostowski disse suas últimas palavras:

 

“Não há razões para lamentar. Sempre previmos que, em certo momento, estaríamos sujeitos a nos despedir para sempre. Lembra-se da conversa que tivemos na noite de Natal em Vila Rica, defronte às seculares ruínas da cidade colonial espanhola? Quantos perigos para vencer a fúria do rio Ivaí, suas corredeiras e rochas perigosamente expostas. Por pouco não perdemos nossas vidas logo no início da Expedição e felizmente pudemos cumpri-la até o momento de agora. A morte, meu amigo, é uma condição natural e faz parte dos tantos riscos a que estamos sujeitos ao dedicar-nos, de maneira tão abnegada, à ciência. Somente o futuro irá nos mostrar o quanto isso tudo valeu a pena!”

 

Foi assim que o incansável pesquisador fôra vencido, dando seu último suspiro aos 44 anos de idade. Terminavam ali seus planos para publicar uma grande obra revisiva sobre as aves que decidira estudar, usando como base o expressivo material que obteve desde a primeira viagem, em 1910, quando fixou-se no Paraná como colono imigrante.

Seu amigo, e todos os que o assistiam àquele momento, fizeram suas orações. Em seguida, embrulharam-no em um lençol e o carregaram para um local pouco distante dali, na beira da estrada que levava a Guarapuava. Mal sabiam que aquele local iria tornar-se, 15 anos depois, um dos parques nacionais mais conhecidos do Brasil.

A cerimônia simples, como simples foram seus dias, culminou com um montinho de pedras colocadas carinhosamente sobre o jazigo. A floresta, antes vibrante e repleta de movimento e sons que vinham de todas as partes, agora estava silenciosa. Parecia até que a mata prestava a merecida homenagem ao cientista que, desde a infância na bucólica Kamionka, encantava-se com todas as formas de vida que lhe acompanhavam na dura lida agrícola.

Encerrados os rituais fúnebres, Jaczewski retornou ao abrigo e foi sentar-se à mesa. Tomou uma caneca de café às mãos e, com olhar distante, pensou nos insetos que aguardavam por serem espetados pelos alfinetes entomológicos, junto a uma etiqueta contendo o local e a data da captura. Nas prateleiras de pinho fixadas na parede, olhou para os vários vidros cheios de álcool que continham animais de todos os tipos: serpentes, sapinhos, peixes, aranhas, caracois. Também deteve-se nas caixas de madeira, empilhadas no canto e contendo uma infinidade de pássaros e mamíferos embalsamados e cuidadosamente protegidos com algodão e conservantes.

Por alguns instantes, pensou em desistir. Consigo mesmo, em reflexão, manifestou algum ar de revolta:

 

“- Será que valeu a pena? Será que todo esse esforço trará algo de importante para alguém? Quem, afinal, preocupa-se com a ciência, com a natureza, com a biodiversidade e com quantas espécies – e seus nomes em latim – vivem aqui? Estamos aqui em um paraíso ou um inferno?”.

 

Mas as últimas palavras do líder ecoavam em sua consciência: “Somente o futuro irá nos dizer...”. Havia ali, aos seus cuidados, uma infinidade de seres de todos os tamanhos, formas e cores. Junto a cada vidrinho, cada minúsculo organismo guardado em fluido, estava seu respectivo rótulo, informando onde e quando foram encontrados; quem os capturou. E não se tratava somente de uma formidável quantidade de novas espécies, de descobertas valiosas. Não eram apenas números!

Cada espécime, por menor que fosse, era um testemunho das condições ambientais dos lugares por onde passaram e que, em breve, estariam completamente destruídos, descaracterizados pelo incessante instinto humano de ocupar todos os espaços, sem deixar rastros de seu passado. Se não mostravam toda a riqueza de nossa natureza, eram peças preciosas a serem incluídas pouco a pouco no eternamente inacabado livro da natureza.

Junto aos exemplares havia também a história de cada um dos que se esforçaram em obtê-los. Afinal, representavam também uma pequena amostra da realização de um sonho épico. Um destino cumprido através dos longos e penosos anos de viagem, distantes de suas casas e de suas famílias. Um prêmio pelas dificuldades superadas ao devassar florestas, resistir às intempéries, suportar o frio, o calor e a fome...

 

“ - Ficarão preservados através dos tempos. Muito além da minha vida e também de várias gerações futuras, relembrando tudo o que vivemos para transformá-los de seres anônimos a representantes autênticos de um processo sem fim de conhecimento da biodiversidade. Não é pouco. Envergonho-me por ter pensado, por algum momento, em desistir”.

 

Mesmo abatido, tomou papel e, com as mãos trêmulas, redigiu uma carta:

 “Pinheirinho, 4 de abril de 1923. Prezado dr. Antoni Wagner, diretor do Polskie Państwowe Muzeum Przyrodnicze. É com imensa tristeza que informo que, na data de hoje, Tadeusz Chrostowski, líder da Expedição Zoológica ao Paraná, faleceu após período de terrível enfermidade” [...]

E concluiu, resoluto, ao fim da missiva: “Continuarei a expedição e, após algum tempo para recuperar minha saúde na próxima colônia de imigrantes polacos, seguirei viagem prosseguindo as coletas até Curitiba e, depois, Paranaguá, onde tomarei o navio para a Europa”.

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Epílogo

O entomólogo Tadeusz Antoni Franciszek Jaczewski, nascido em São Petersbugo (Rússia) em 1° de fevereiro de 1899, ainda viveu por mais 51 anos. Cumpriu todo o percurso planejado e, após alguns dias coletando insetos em Guarapuava, depois Curitiba, desceu a Serra do Mar e, em 13 de outubro de 1923, seguiu de navio para a Polônia pelos portos de Paranaguá e Santos. Ao chegar lá, apressou-se em entregar todo o material colecionado para o museu polonês de História Natural em Varsóvia. Do espólio foram publicadas dezenas de artigos científicos sobre insetos, moluscos, miriápodos, parasitos, plantas, rochas e sobre o material etnográfico colhido, além de uma grande revisão sobre os pássaros, que ficou a encargo de Jan Sztolcman.

Jaczewski estudou com dedicação o expressivo material coletado no Paraná e também de vários outros países que visitou posteriormente. Em 1925 doutorou-se pela Universidade de Poznan e, em seguida, tornou-se professor da Universidade de Varsóvia e, então, foi nomeado diretor do Museu de Zoologia de Varsóvia. Durante a Segunda Grande Guerra, assumiu pessoalmente o cuidado com as coleções e, junto com outros colegas do museu, montou barricadas nas portas e janelas para protegê-las dos bombardeios. Jamais esqueceu o pedido do chefe: não desista!

Foi um pesquisador de renome no cenário científico mundial, condecorado inúmeras vezes e membro de instituições científicas de vários países, inclusive da Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica. Destacou-se como iniciador e editor de obras monográficas sobre a fauna da Polônia, com destaque para a obra enciclopédica denominada “Katalog fauny Polski“ (Catálogo da Fauna Polonesa).

Faleceu aos 75 anos em Varsóvia (Polônia), na data de 25 de fevereiro de 1974.

 

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Créditos:

Texto baseado em publicações, biografias, documentos, cartas e anotações pessoais de membros da Expedição Zoológica Polonesa ao Paraná (1921-1923). Mais informações, incluindo indicação detalhada das fontes está aqui: https://archive.org/details/2016HCT11VolumeVI1910

Foto: Tadeusz Jaczewski em seu gabinete, em 1957 (autoria: Krystyna Kowalsky, disponível em https://rcin.org.pl/.../publi.../90905/edition/86645/content

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