Taxonomia

Anarquia Kuhniana?

Ver Currículo - Ana Dal Molin • 19 de junho de 2017


Na semana passada, o desabafo de Fernando Straube sobre um comentário publicado na revista Nature levanta novamente reações e críticas à taxonomia e sistemática como ciências. Infelizmente, essa publicação na Nature não é surpreendente.

 

O argumento de que certas áreas de estudo se beneficiariam de uma classificação única e imutável não é novo. Essa idéia começou a aparecer com mais intensidade depois da CDB (situação resumida por Samper, 2004), quando se cunhou a idéia de "impedimento taxonômico", e começaram a se disseminar os primeiros bancos de dados públicos (que mencionei num texto anterior). Na realidade, a revista Nature tem publicado várias matérias desse tipo intermitentemente há mais de uma década, começando com uma carta de Charles Godfray (2002). Malcolm Scoble publicou um artigo em 2004 discutindo mais a fundo a proposta de "taxonomia unitária". Essa idéia, de que deveria haver um sistema único de classificação, é reveladora: primeiro revela que alguns autores não vêem estudos de taxonomia e sistemática bem como ciência (pois a natureza básica do conhecimento científico é sua eterna auto-crítica, que no caso pode gerar mudanças em sistemas de classificação), e segundo, revela que talvez alguns autores não tenham uma idéia clara do trabalho de taxônomos e sistematas e como essas áreas interagem.



A questão de "por que nomes mudam" foi didaticamente ilustrada por Mallet & Willmott (2003). Tomei a liberdade de traduzir o exemplo deles, publicado na revista TREE, abaixo:



quadro 1
(clique para ampliar a imagem)

 


Passada a questão de por que nomes mudam, fica a dúvida de que por que cientistas de uma área ainda insistem em atacar a outra como se fossem times rivais ao invés de lidar com a idéia de que o conhecimento evolui e isso produz mudanças. Minha hipótese tem a ver com uma observação de que alguns programas acadêmicos em biologia valorizam mais o estudo da epistemologia do que outros, uma falha que raramente é sanada à medida que o indivíduo se especializa na pós-graduação. Assim, existem muitos cientistas que possuem uma idéia incompleta da forma como o conhecimento em diferentes áreas é produzido, principalmente no aspecto histórico. Isso explica por que o argumento que "os taxônomos têm trabalhado da mesma maneira desde a época de Lineu" é repetido tantas vezes como se fosse um problema, e não uma característica de uma ciência cujo objeto de estudo é a classificação que convenciona-se começar com o trabalho de Lineu. (Infelizmente isso também leva, volta e meia, à apreciação equivocada do valor e da aplicação de novidades tecnológicas, mas esta discussão seria uma bruta tangente que não cabe aqui.) No caso da taxonomia biológica, este problema se torna mais complicado por conta do caráter duplo da taxonomia, como ciência da vida e como ciência da informação (ao lidar com o histórico dos nomes e classificações), que acaba gerenciando parte do vocabulário básico usado por outras áreas da biologia---os nomes dos organismos. Esta questão foi bem discutida por Wheeler (2004) e por Carvalho et al. (2007).


Frequentemente, taxônomos são também apresentados como luditas, contrários ao uso de novas tecnologias. Porém, como foi lembrado por David Morrison nesta resenha, e como mostrei em outro texto, também essa perspectiva está equivocada. No livro Systematics as Cyberscience (2008), Christine Hine descreve em detalhes como a adoção de tecnologia ocorreu cedo nessa área, mas não é suficiente para resolver o "impedimento taxonômico", pois infraestrutura digital não tem utilidade se não há quem produza conteúdo (além disso, há obviamente muitas outras questões envolvidas na construção dessa infraestutura).

 

a slide
Slide da apresentação de John LaSalle sobre o Atlas of Living Australia no ICE (2008), que resume tudo.


Costumo dizer a colegas que talvez os próprios taxônomos tenham ajudado a criar esse "problema de RP". Isso porque, colocando-me no lugar de um cientista de outra área, em que a maioria dos artigos inclui uma detalhada seção de materiais e métodos, os artigos de taxonomia frequentemente omitem informações metodológicas ou colocam em outras seções (por exemplo, nas listas de material examinado). Existe uma tendência recente de mudar isso, mas a grande maioria ainda omite uma seção em que se relata de maneira explícita o método pelo qual o trabalho de documentação dos espécimes e o processo de decisão foi feito. Atividades que requerem grande esforço e tempo muitas vezes são dadas como automáticas. Como consequência, o leitor que não é da área não pode visualizar completamente como aquele resultado foi produzido.


Outra evidência de que o trabalho do taxônomo é mal compreendido (ou talvez nem visto como ciência) é que a maioria dos artigos de outras áreas lista referências de cada software e equipamento utilizado, mas raramente se cita como foram identificados os organismos usados no estudo, incluindo descrições originais. Vejo isso como uma falha na seção de materiais e métodos, pois diferentes taxônomos, diferentes chaves de identificação e diferentes conceitos de grupos podem potencialmente afetar os resultados obtidos em qualquer estudo ao se vincular os resultados a organismos diferentes. Como exemplo temos diversos programas de controle biológico que enfrentaram grandes dificuldades devido a problemas de identificação de parasitóides (resumido por Gordh e Beardsley, 1999). Essas ocorrências são frequentemente encontradas em catálogos (por exemplo, "espécie B, trabalho X, citada como espécie A: erro").


A idéia de taxonomia unitária (ou, como descreveu Straube, "Quero nomes perenes – façam seu trabalho, e logo" ) é certamente compreensível do ponto de vista do usuário (o conservacionista, ou o ecólogo, ou geneticista...) que precisa de uma "árvore hierárquica" ou pelo menos um nome ao qual vincular suas descobertas. No entanto, se o histórico de instabilidade taxonômica de um nome torna-se um problema grave devido ao grande número de sinonímias, por exemplo, ou mesmo novas combinações, a evolução da informática aplicada à biodiversidade trouxe também várias soluções (por mais que não se tenha chegado a um consenso sobre qual a melhor), tais como o uso de LSIDs (aqui explicados por Belbin (2007) e pelo IPNI), a criação do ZooBank, e o uso de conceitos taxonômicos (explicados em maior detalhe por Franz e Peet (2009)) que refletem a história da idéia associada a um nome (por exemplo, o que se entende hoje por "Chalcididae" não é a mesma coisa que se entendia no século XIX). Além de, é claro, o uso de catálogos---que (surpresa!) existem desde Lineu. Ou seja, não é um problema intratável, especialmente quando se tem computadores e Internet.


Acredito que poucos iriam discordar da afirmação que a contínua revisão de classificações é algo desejável, pois elas podem refletir melhor as relações evolutivas entre grupos de organismos e portanto facilitar a inferência de características ou mesmo distribuições geográficas que não somos capazes de observar diretamente. Portanto, dizer a taxônomos, ou mesmo a qualquer outro cientista, que "façam o seu trabalho de uma vez porque quero o produto acabado" é como dizer que algum dia atingiremos "o fim da ciência".


Em conclusão: podemos fazer melhor. Tanto taxônomos quanto usuários de taxonomia. É 2017. Bullying é feio, achar que pode fazer tudo sozinho é ignorância, citação sem crédito é plágio, etc.


  

Fontes: Imagem: captura de tela da primeira página de resultados da busca por "taxonomist" no Google Images.

Bônus: slides de um seminário antigo sobre o assunto.

Comentários