Taxonomia

Animais Polinizadores & Segurança Alimentar: Novos Desafios para a Taxonomia

Ver Currículo - Favizia Freitas de Oliveira • 28 de maio de 2017


A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) compreende a realização do direito de todos os cidadãos brasileiros ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais (Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional – LOSAN - http://www4.planalto.gov.br/consea/publicacoes/cartilha-losan-portugues), tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis (http://www.sedest.df.gov.br/seguranca-alimentar/seguranca-alimentar-e-nutricional.html).

Assim, a LOSAN estabelece não apenas nosso direito a uma alimentação de qualidade, respeitando aspectos culturais importantes para todos nós, o que é algo bastante complexo (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732007000100008), como também prevê a conservação da biodiversidade e utilização sustentável dos recursos naturais, como garantia para nossa segurança alimentar e nutricional.

Logo, se todos nós temos o Direito Humano a uma Alimentação Adequada, temos também o Dever Humano, por lei, de Conservarmos a Biodiversidade, como garantia para promover Segurança Alimentar para nós mesmos e para as futuras gerações que virão.

E nesse contexto, o modelo de produção é um aspecto importante para garantia de segurança alimentar e nutricional, uma vez que para que haja segurança alimentar e nutricional, precisamos produzir alimentos de forma respeitosa ao meio ambiente, restringindo ou excluindo o uso de agrotóxicos que afetam a biodiversidade, a saúde de trabalhadores e consumidores, assim como excluindo ações que fujam ao princípio da precaução, visando e promovendo ações que integrem produção e consumo responsáveis.

Quando falamos de produção, um dos aspectos mais importantes é a proteção aos animais polinizadores, os quais assumem um papel crucial na produção dos alimentos que consumimos (em quantidade e qualidade), uma vez que a polinização é um dos principais mecanismos de manutenção e promoção da biodiversidade, e somente após a polinização as plantas podem formar frutos e sementes, das quais dependem para sua reprodução.

Para termos uma ideia mais clara do papel desempenhado pelos polinizadores na conservação ambiental e na agricultura, estudos sugerem que os animais polinizadores contribuem na reprodução sexual de mais de 90 % das espécies de plantas angiospermas (https://doi.org/10.1093/aob/mcp076) e em mais de 35% das plantas agrícolas que alimentam o mundo (incluindo, pelo menos, 800 plantas cultivadas em todo o mundo - http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/274/1608/303), além de muitas plantas utilizadas pela indústria farmacêutica. Em termos monetários, a polinização tem sido estimada em mais de $112 bilhões de dólares ao ano em todo o mundo, e mesmo para algumas culturas agrícolas que não dependem de polinização, a polinização cruzada realizada pelos animais polinizadores melhora não apenas a quantidade (maior produção e menor área de cultivo), mas também qualidade das sementes e produtos.

Logo, não é nenhum exagero dizermos que a manutenção da diversidade de polinizadores contribui para a manutenção da nossa diversidade de alimentos e melhoria de nossa qualidade de vida.

Em termos práticos, o papel desempenhado pela biodiversidade em nossa vida prática tem sido pouco divulgado (http://www.biosis.bio.ufba.br/?page_id=127), mas diversas iniciativas no âmbito Internacional (IPI - http://www.fao.org/pollination/en/) e Nacional (http://www.mma.gov.br/biodiversidade/biodiversidade-brasileira/conserva%C3%A7%C3%A3o-de-polinizadores; http://www.polinizadoresdobrasil.org.br/index.php/pt/projeto) tem sido realizadas visando o conhecimento e proteção aos animais polinizadores.

No âmbito internacional, dentre os países/iniciativas que se organizaram para implementarem a Iniciativa Internacional dos Polinizadores (IPI), podemos destacar iniciativas regionais que incluem a Iniciativa Européia de Polinizadores (EPI - http://www.reading.ac.uk/AcaDepts/aa/epi/publish/EPI/), a Campanha Norte Americana de Proteção aos Polinizadores (NAPPC - http://pollinator.org/nappc/), a Iniciativa Africana de Polinizadores (API - http://www.arc.agric.za/arc-ppri/Pages/Biosystematics/African-Pollinator-Initiative-(API).aspx) e o Programa de Polinizadores do Sudeste da Ásia (ICIMOD - http://www.icimod.org/?q=22366).

Nos últimos 20 anos, diversos grupos de pesquisadores de diferentes instituições brasileiras tem trabalhado para promoverem a Iniciativa Brasileira de Polinizadores (IBP), incluindo diversas universidades, instituições de pesquisa e também algumas agências do governo. Um dos projetos importantes realizados no intuito de conhecimento e proteção aos polinizadores em nível nacional foi o Projeto Polinizadores do Brasil (http://www.polinizadoresdobrasil.org.br/index.php/pt/), o qual produziu uma quantidade imensa de informações de excelência sobre polinizadores em culturas agrícolas no Brasil, muitas das quais já disponíveis ao público.

Todos esses conhecimentos acumulados corroboram estudos realizados em todo o mundo, os quais revelam que, do ponto de vista da biodiversidade, 90% das plantas polinizadas por animais são polinizadas por insetos (https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-662-05238-9_7), e em especial as abelhas (Hymenoptera: Anthophila), que se constituem nos mais importantes polinizadores de plantas silvestres e cultivadas (http://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.ecolsys.29.1.83), chegando a serem responsáveis por mais de 85% da polinização das plantas agrícolas mais importantes para a espécie humana.

Em se tratando do Brasil, com uma das faunas mais biodiversas do mundo, temos um desafio imenso para conhecermos e preservarmos nossa fauna de polinizadores, como é o caso das abelhas. Em termos de conhecimento, não há como pensarmos numa Iniciativa Brasileira de Polinizadores sem acesso à informação taxonômica sobre as espécies de polinizadores existentes, o que nos remete ao fato de que a Taxonomia merece papel de destaque nessa tarefa, cujos novos desafios partem da necessidade de organização do conhecimento taxonômico atual, repatriação da informação taxonômica depositada em Museus de História Natural estrangeiros e trabalho árduo em Taxonomia alfa das numerosas espécies ainda desconhecidas pela ciência que temos por descrever.

Para termos uma pequena ideia desse desafio com relação às abelhas, apenas para a tribo Meliponini (abelhas indígenas “sem ferrão” da família Apidae), foi computado recentemente para o Brasil um total de 244 espécies válidas e cerca de 90 formas não descritas (prováveis espécies novas), estas organizadas em 29 gêneros registrados em nossa fauna (http://periodicos.uefs.br/index.php/sociobiology/article/view/699/584). Isso significa que apenas para uma única tribo de abelhas, temos pelo menos 36,5% de espécies a mais do número total de espécies conhecidas pela ciência para serem acrescidas à fauna calculada para o país. Se considerarmos as famílias Halictidae e Megachilidae, esse número certamente excederá 70%.

Em um país essencialmente agrícola como é o caso do Brasil, isso significa que temos urgência em acessar o conhecimento taxonômico dos polinizadores para que estudos sobre a Biologia Flora, Ecologia (incluindo interações entre abelhas e plantas), Bionomia e Comportamento dos mesmos possam ser feitos, visando à confecção de planos de ação/manejo para polinizadores em áreas agrícolas.

E, obviamente, urgências e necessidades não faltam para a Taxonomia no Brasil.


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